
PRISIONEIRO DA POESIA
Quero enclausurar-me,
Suspenso nos cabos dilacerantes do sábio tempo.
Deixem-me uma nesga de céu para contemplar,
Nestas pérfidas masmorras da penitência,
Casto castigo numa autenticidade impiedosa e sem escrúpulos
Ah, Meu deus,
Sei que será tarde,
Quando a foice cintilante da morte me beijar,
Sinto mumificarem-se os rios,
Secando planaltos estendidos em sonhos e convicções.
Dizei-me poetas das arábias,
Que ventos se levantam,
Rasgando feridas ácidas nos ventres inférteis dos sentidos?
Libertem-me de tudo o que me enoja de ser homem,
Neste marasmo que não ousei sequer desejar!
Bastar-me-á pão e água e o dom da palavra pra erguer a igreja onde sou Deus.
Não me tirem as logorreias de poesia que me trespassam o corpo e explodem nos meus lábios como lava incandescente dum vulcão.
Não me tirem a poesia,
Que respira em mim por cada poro,
Apenas me impeçam de escrever poesias tristes,
Porque essas...
Ah, Meu Deus,
Essas, dói tanto vivê-las...
Regensburg
30-03-10
Beija-flor