
LEVA-ME PARA CASA
Afluem-me nos dedos sobre rugas
As sustidas papoilas da minha infância
Saudades verdejantes de paisagens mudas
Dum tempo imaculado de criança.
Nos olhos tinha o sorriso bem vincado
Que fui deixando nas paragens apeado.
Enjaulado, trago em mim um manto vasto
Que rompia abarcando a madrugada
Levando pela fresca o gado ao pasto
Partilhando com eles a orvalhada.
Entre um ninho e uma cabra que berra,
Fui nascendo eu, naquela serra.
Quantos sonhos lavrei naquele montado
Tomando banho na cascata da pequenez?
Quantas bocas desejei, que em pecado
Me extorquissem de inocente, a trepidez?
Quantos gritos mudos malhados na eira
Correm perdidos no vale verde da ribeira?
Porque não sou apenas semente de trigo,
Nascendo entrelaçada na carqueja?
Esperando em braços a foice do castigo
Levando a dor febril que em mim sobeja!
Trago na boca os sabores que me consomem
Daquele lugar onde cresci, me tornei homem.
Não contenho mais em mim a atrocidade
Desta maré sagaz que me desterra
Vive em mim um querer, porque é verdade
A vontade de voltar à minha terra!
Mesmo trôpego e de asa calcinada,
Não me abandones vento,
E leva-me para casa.
Regensburg
19-06-2010
Beija-flor
Afluem-me nos dedos sobre rugas
As sustidas papoilas da minha infância
Saudades verdejantes de paisagens mudas
Dum tempo imaculado de criança.
Nos olhos tinha o sorriso bem vincado
Que fui deixando nas paragens apeado.
Enjaulado, trago em mim um manto vasto
Que rompia abarcando a madrugada
Levando pela fresca o gado ao pasto
Partilhando com eles a orvalhada.
Entre um ninho e uma cabra que berra,
Fui nascendo eu, naquela serra.
Quantos sonhos lavrei naquele montado
Tomando banho na cascata da pequenez?
Quantas bocas desejei, que em pecado
Me extorquissem de inocente, a trepidez?
Quantos gritos mudos malhados na eira
Correm perdidos no vale verde da ribeira?
Porque não sou apenas semente de trigo,
Nascendo entrelaçada na carqueja?
Esperando em braços a foice do castigo
Levando a dor febril que em mim sobeja!
Trago na boca os sabores que me consomem
Daquele lugar onde cresci, me tornei homem.
Não contenho mais em mim a atrocidade
Desta maré sagaz que me desterra
Vive em mim um querer, porque é verdade
A vontade de voltar à minha terra!
Mesmo trôpego e de asa calcinada,
Não me abandones vento,
E leva-me para casa.
Regensburg
19-06-2010
Beija-flor